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17 de julho de 2006


És Eternamente Responsável...

(Texto fantástico tirado daqui -> Banheiro Feminino)

Aos seis anos me deram uma camisola que tinha estampada uma faixa; "Miss Mundo" . Eu me sentia a Miss, do meu mundo, é claro. Ia e vinha dizendo a todos que eu era Miss. Fácil, a camisola com a estampa de faixa, eu podia tudo. Até que acompanhando os concursos, notei que o livro preferido das misses era "O Pequeno Príncipe". E quando o apresentador perguntava:

- E a frase que expressa o seu jeito de ser?
- "És eternamente responsável por aquele que cativas" do Saint Exupéry.

A tal frase é do mesmo livro. Passei muitas horas em frente ao espelho repetindo a mesma ladainha. Até que cresci e fui entender o real significado dessa maldita frase. Sim, maldita! Primeiro, quem fala a tal frase pro Pequeno Príncipe? Uma raposa, bicho sórdido, devorador de carniça, sempre a espreita e definida em todas as fábulas como ardilosa. Daí já se desconfia de alguma coisa errada. Decifrei o verdadeiro sentido dessa frase.

Eu tinha doze anos. O menino era o que sentava duas carteiras à frente. Mandou bilhete, topei o namoro. Ao chegar em casa, ligo na novela e vejo esse diálogo:
- André Luiz, eu vou viajar para Paris, é uma oportunidade que eu não posso perder... Você me espera meu amor? Eu te amarei aonde quer que eu esteja!
- Eu também, Lúcia.


No dia seguinte, cheguei à escola com o texto ensaiadinho. Chamei o moleque e soltei.

- Te amarei aonde quer que eu esteja!

Vi seus olhinhos encherem de água. Uma semana depois a minha mente já tinha encontrado novos rumos e eu esqueci do menino. Ele me cobrou a promessa. Eu expliquei que falei de amor, porque tinha achado bonito. A mãe dele ligou lá pra casa, o meu apaixonado teve febre e tudo. Ao desligar o telefone, mamãe disse:

- Você não sabe que é responsável por quem cativa?

A culpa tomou conta de mim, eu tinha doze anos! Ainda sim continuei a acreditar nas Misses, tudo o que elas diziam fazia muito sentido para mim.

- Vou me alistar na cruz vermelha, o povo de Angola sofre muito com a guerra civil!

Vibrava com as Misses e machucava os corações. Aos dezesseis anos, um garoto fez greve de fome por mim, a mãe foi lá em casa, pediu pra eu ir ver o meu desafortunado. Eu havia apenas emprestado um caderno, dado meia dúzia de sorrisos, e pronto, o garoto se apaixonou. A mãe brigou comigo;

- Porque você deu atenção, se não queria nada?

Novamente a raposa na minha vida. E no mesmo mês, a vencedora colombiana do concurso de Miss Mundo, disse que o livro de cabeceira dela era o Pequeno Príncipe. De novo.
Sou eu muito mais desafortunada do que qualquer outro que tenha caído de amores por mim, a candidata a Miss Mundo que desfila de camisola. Eles carregarão a dor do amor não correspondido, que vai se esvair diante de uma nova perspectiva, e ainda a consciência limpa de terem entregado seu amor a alguém que não o correspondeu. Foi aí que cheguei a conclusão que a frase de Saint Exupéry na verdade quer dizer:

- És eternamente responsável pelo meu sofrimento, se me deixares.

A frase que culpa, a frase-prelúdio do remorso, dita pela vil raposa e escrita pelo escritor-aviador que tem nome de orixá. Conseguiu me fazer carregar um culpa enorme. Fez me sentir, fria e má. Pois acreditei piamente na minha incapacidade amorosa. Me tornei uma desconjuntada, procurando casos difíceis, impossíveis, para me redimir. Quando me deparava com um amor dedicado a mim, pensava;

- O que faço com isso?

Jogava fora, sem querer. É muita responsabilidade ser amado. Talvez eu seja tão cuidadosa, que simplesmente não saiba me deixar levar. Até meses atrás...
Eu dominava a situação, como sempre. Miss Mundo sem faixa, mas com propriedade de causa, anos de treinamento. Até que em um e-mail, me transformei na raposa. Um desprezo ao meu amor, um hiato eterno naquela história. Eu já havia aprendido a lição, era responsável por quem eu julgava ter cativado. Agora era a minha vez, eu era a raposa, que tinha sido cativada e abandonada. Não cobrei de ninguém a conta pelo meu ego ferido. Fui atrás do "Exú-Pery", na tentativa de que naquele livro diabólico que ele escreveu, tivesse uma frase para mim, não tinha. As tão amadas Misses... Também não.

posted by Genivalda Joga pedra na Geni!




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